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O ADORÁVEL
REVOLUCIONÁRIO GOSTÁVEL
A melhor definição que conheço
de Mario Pedrosa foi dada por
ele mesmo, em uma conversa que
tivemos, em que se definiu como
gostável. E, de fato, não
conheci, ao longo de toda a
minha vida, ninguém tão gostável
quanto ele. Ele era gostável
porque nele o afeto vinha antes
da razão. Não que sua capacidade
de racionalizar fosse menor, ao
contrário - e muito pelo
contrário - mas havia nele uma
disponibilidade generosa consigo
e com o outro - fruto de uma
longa espera tecida pela
paciência - que o fazia aceitar
o mundo tal como se apresentava
a ele.
Pode parecer incongruência falar
de Mario como um conforme. Logo
ele , um revolucionário de
primeira hora e um homem pronto
a defender todas as invenções
das vanguardas artísticas que
surgiram ao longo das sucessões
dos “ismos” do século XX. Mas
Mario, que é igual em idade ao
século XX, não é um conforme no
sentido de conformado ou
resignado, que esta palavra pode
induzir, mas, antes, um
conforme, no mesmo sentido
metafórico de um líquido que
toma a forma do sólido que o
contem. Em outras palavras,
Mario Pedrosa criou uma
disponibilidade plástica para o
mundo, que adequava-se ao
tamanho da vida e de tudo o que
nela pode estar contido. Por
isso, um conforme. Sua sabedoria
foi a de aceitar as coisas tal
como elas são: na sua
radicalidade. E, nessa
radicalidade, está tanto o sonho
quanto a revolta; tanto o amor,
a raiva, a razão e o mistério,
quanto a arte, a ciência , o
sexo e a política. Enfim, o
mundo comporta a pluralidade, e
a sabedoria é colocar-se no “
ângulo “do afeto, para, a partir
deste ponto, ser afetado e
afetar o mundo. Esse conforme,
tal como me refiro, abarca ,
então, ser revolucionário, por
também estar contido nos limites
da vida.
Isso foi o que Mario foi: um
adorável revolucionário gostável
que aceitava as forças da
realidade. No ensaio Arte e
personalidade escreve: “(...)
ninguém escapa à realidade,
muito menos a alma sonora e
sensível do artista, nem a
realidade tem outro meio de se
manifestar senão através da
forma.” (p.89) O que guiava a
sua ação e o seu pensamento era
a dimensão justa que tinha do
mundo: de seus limites e ao que
nele está circunscrito. Escrevo
isso porque, quando, certa vez,
falei para ele que acreditava
que a realidade é a coisa mais
radical que existe, senti que
ele me ouviu com atenção.
Gostou. E me disse, da mesma
forma carinhosa com que me
tratava: “ Joãozinho, você falou
algo importante ”. Ao dizer isso
pontuou algo que o havia afetado
e, generosamente, me indicou o
caminho que meu pensamento
haveria de trilhar. Exerceu aí,
na intimidade de uma relação
cotidiana - eu era seu
secretário particular - o
trabalho do verdadeiro crítico,
que é o de fazer uso de seu
aparato sensível (informação,
percepção, discernimento,
lucidez, razão) para afetar o
destino das coisas. Por isso que
Mario é celebrado como o maior
crítico de arte da segunda
metade do século XX. Sabia
conduzir o destino das coisas. E
certamente é graças a ele que as
artes plásticas brasileiras têm,
hoje, a importância que têm.
Sabia, como poucos, exercer a
qualidade do discernimento. E
isto nele era possível porque a
maneira como se relacionava com
o mundo comportava pluralidade
de visão, sem abrir mão de suas
convicções.
Pluralidade e convicção são os
elementos que compõem a rica
visão que Mario Pedrosa tem da
realidade. Abre-se para as
potências do mundo, mas isso não
significa que as aceite de forma
passiva e se deixe diluir nelas,
gerando um vale tudo
inconseqüente; ao contrário, é
movido por suas convicções , que
faz com que direcione a
realidade no sentido do que
acredita. O jogo de dualidades –
o da pluralidade que abre-se
para o múltiplo e o da convicção
que fecha-se no uno – é a
engrenagem interna do pensamento
e da ação de Mario Pedrosa. É a
reprodução da estrutura
gestaltica - que tanta
importância teve na formulação
de sua teoria da arte – e na sua
forma de perceber e de agir no
mundo. É uma inserção no que ele
chama de “vitalidade do espaço”.
Na sua tese, Da natureza afetiva
da forma na obra de arte,
escrita em 1949 e defendida em
1952, escreve que (...) “uma
unidade ótica tende a formar a
clausura mais econômica,
segregando-se a si mesma o mais
completamente possível de seus
circundantes. Uma área fechada
aparece mais forte, mais
estável, do que outra aberta e
sem limites.” E continua :“Na
china, já antes da era cristã,
tinham os seus sábios o
sentimento de vitalidade
espacial: “Vazio e oco – eis aí
palavras e idéias que repugnam
aos nossos instintos. Mas
Lao-tse é amigo da idéia de
espaço, e faz dela uma boa
companheira; ele se absorve nas
utilizações do vazio. ‘
Modela-se o barro, fazendo um
vaso; a utilidade deste depende
de seu interior oco. Para fazer
uma casa, abrem-se portas e
janelas; a utilidade da casa
depende dos espaços vazios.
Assim, é o inexistente nas
coisas que lhes dá utilidade’.”
(27/28)
Sua inserção no mundo se dá a
partir da idéia de um todo que é
capaz de incorporar tudo, como o
vazio do vaso ou das portas e
das janelas da casa de Lao-tse,
que é a estrutura que não existe
visualmente, mas que garante a
possibilidade da existência real
e visual do vaso e da casa. Da
mesma forma, na escultura ou no
desenho. No primeiro, é o que se
retira - o que se desbasta - que
vai permitir o surgimento da
forma na escultura; e, no
segundo, é o branco do papel - o
que não está sendo imediatamente
percebido - que vai garantir a
possibilidade da leitura do
desenho. A organização estável
da figura é assegurada pela
linha que a faz destacar-se do
fundo, criando uma estabilidade
ou uma direção clara de sentido.
Essa metáfora que, na vida
pessoal de Mario, não é
propriamente uma metáfora, mas a
maneira mesma como conduzia sua
ação e sua percepção do mundo, é
fundamental para compreendermos
suas escolhas. Nele, conteúdo e
continente, são apreendidos em
um único movimento.
O vazio de Lao-Tse me faz
lembrar a história cabalística
dos dois fogos que criaram as
escrituras divinas. O fogo negro
que desenhou as letras, que
pensamos ler, e o fogo branco
que desenhou o espaço entre as
letras, que nos permite ler. É o
fogo branco que garante a
possibilidade da cristalização
das palavras e das imagens, mas
é ele também que nos indica o
outro do homem que é o vazio, ou
as forças que não são
imediatamente percebidas, mas
que asseguram a possibilidade da
trama dos acontecimentos. A
parábola da palavra conclui que
a humanidade, por enquanto, só
sabe ler o fogo negro. Haverá um
dia que seremos capazes de ler o
fogo branco. O empenho de Mario
na vida foi o de ler não só o
fogo negro, como também o fogo
branco. Por isso que a gestalt
tem importância central na sua
percepção do mundo e da arte. É
ela que, enquanto psicologia da
forma, tenta dar base científica
a essa maneira de perceber o
mundo, em que uma forma para
existir depende do conjunto,
isto é, de como ela se organiza
e se destaca do fundo. Em outras
palavras, a natureza afetiva da
forma está em dar conta não só
do que é imediatamente
percebido, mas também e
principalmente do que sobra ou
do que falta, do que propicia ou
do que se desprende, ou, como
Mario pontuou, ela depende da
vitalidade do espaço.
Foi a partir desse pensamento
que busquei perceber o dado mais
fascinante da personalidade de
Mario Pedrosa , que é o de ter
dedicado a sua vida à política e
à critica de arte, e de as ter
exercido de forma brilhante. Uma
delas bastaria. Mas por que ele
teve o desejo de lidar com duas
atividades aparentemente
opostas. A política aponta na
direção do todo da organização
social; a arte, ao contrário,
está mais circunscrita a ação
individual. Ambas visam o todo e
a parte, mas suas ações
distinguem-se na medida em que
uma interfere diretamente no
mundo e a outra deixa-se
envolver por ele. Pensei, pode
haver aí uma complementaridade
de opostos. Quem sabe, se como
Freud, ele poderia descansar de
uma atividade, exercendo outra ?
Quem sabe, não percebesse
necessariamente essas duas
atividades como sendo opostas,
mas como diferentes lados de uma
mesma moeda? Pode até ser, mas
todas essas divagações me
parecem impregnadas de um
romantismo dialético que me
desagrada, que correspondem mais
à imaginação literária do que a
realidade do meu convívio com
Mário e do que pude perceber na
sua maneira de se relacionar com
o mundo.
Pensei, então, em fazer uso da
idéia da vitalidade do espaço,
como se a política fosse o
conteúdo e a arte continente, e,
vice-versa, a arte conteúdo e a
política continente; uma sendo o
vazio necessário da outra. No
entanto, senti que essa relação
espelhada não corresponderia a
verdade porque não havia no seu
pensamento uma transposição
direta entre uma e outra
atividade. Senão teria caído na
armadilha de uma utilização
política da arte, como, por
exemplo, o realismo socialista,
do qual foi ferrenho crítico.
Mas, por outro lado, a idéia de
um vazio, que estabeleceria a
função da política e da arte na
vida e na obra de Mário, não me
abandonava. Foi, então, que
percebi que o “fogo branco”, que
permitia ler a escrita da
política e da arte, era o
conceito de liberdade. A
liberdade é o “inexistente” ou o
não imediatamente percebido, que
dá vida a essas duas atividades.
O compromisso maior de Mario
Pedrosa é com a liberdade. A
liberdade é sua convicção
primeira e o que norteia sua
ação no mundo. É fundamental que
se entenda que a liberdade para
ele não é um valor abstrato e
romântico. É um valor
constituinte. Não é uma
exterioridade a ser conquistada
por um ato voluntarioso. Não é
uma mistificação da razão, mas
uma necessidade vital,
parafraseando o seu primeiro
livro “Arte, necessidade vital.”
Para ele só há vida real onde há
liberdade e só há liberdade real
onde há vida. Liberdade e vida
estão indissoluvelmente
associadas no seu pensamento e
na sua ação.
A maneira como Mario Pedrosa
apreende essa questão é
Espinosana. Não estabelece uma
relação de causa e efeito entre
vida e liberdade e vice-versa,
mas uma estrutura de geração
interna em que uma é razão da
outra. Uma é causa necessária da
outra: a vida fecha-se na
liberdade e a liberdade fecha-se
na vida. Substitui o axioma de
Espinosa que “a potência de Deus
é sua própria essência” por a
liberdade e a vida são potência
e essência de si mesmas. Nelas,
potência e essência são iguais.
Por isso que não são uma
exterioridade a ser conquistada
pelo livre arbítrio ( por um ato
voluntarioso ), mas são uma
afirmação da vontade, mas
vontade entendida aqui como o
que não tem como ser de outra
forma : um compromisso ético.
Liberdade e vida passam a ser um
conjunto coeso. Aproxima-se de
uma através da outra.
Por isso que Mario Pedrosa
dedica-se a arte e a política.
Considera essas duas atividades
como os lugares onde exercita-se
a liberdade. Não podemos nunca
esquecer sua brilhante definição
de arte como exercício
experimental da liberdade. Para
ele a liberdade é exercitada e
experimentada. Isso significa
que ela é da ordem do afeto. Não
é uma produção isolada e
racionalizada da realidade. Ao
contrário, ela está inserida na
vida e no mundo e precisa desse
entorno para existir. Ela é uma
prática. Ela é afeto puro. Por
isso que no início desse texto
me referi a Mario Pedrosa como
um pensador, cujo afeto vinha
antes da razão. O afeto é um
escoadouro, que, ao contrário da
razão - que é uma edificação -
suporta melhor os abalos e as
mudanças porque se adapta as
modificações de curso sem perder
o seu leito. Enquanto a razão
trabalha com certezas, o afeto
trabalha com convicções. Por
isso também que me referi a
Mario Pedrosa como uma pessoas
de convicções. Por isso também
que me referi a ele como uma
pessoa da pluralidade, porque
enquanto as certezas da razão
são excludentes, as convicções
da pluralidade são inclusivas. A
convicção que norteia sua ação e
seu pensamento é a liberdade,
como essência e potência da
vida. Seu compromisso ético é
com a liberdade.
A tradução teórica desse
compromisso ético são O Marxismo
e a Arte Moderna, que vão lhe
fornecer os filtros necessários
para depurar a sua percepção e
apreensão da realidade do mundo.
Ambas manifestações são
expressões da vontade de
liberdade: o marxismo, de
libertar-se da subjugação
milenar do homem pelo próprio
homem, e a Arte Moderna, de
libertar as artes plásticas de
sua dependência secular dos
vínculos, estabelecidos pela
tradição renascentista, com a
representação da realidade
externa.
Ambos isolam-se da realidade
imediata do mundo para poder
retornar a ele de forma mais
potente, modificando as relações
até então estabelecidas. O
Marxismo abriga-se na utopia,
fazendo dela arma poderosíssima
a ponto de rachar politicamente
o mundo em dois e redefinir
todas as relações sociais. Mesmo
hoje, diante da globalização, em
que se tem uma sensação de que o
capitalismo venceu, sabemos que
não se pode mais pensar as
relações do mundo contemporâneo
fora de um compromisso
socialista que garanta melhores
condições de vida para todos. A
Arte Moderna, da mesma forma,
abriga-se na própria realidade
da arte, isto é, o conteúdo da
arte passa a ser os próprios
elementos constituintes das
artes plásticas como cor, forma,
textura, figura, fundo,
superfície, profundidade,
etc.... Enfim, mata a
representação naturalista
clássica para poder salvar a
própria arte.
O que o Marxismo e a Arte
Moderna vão realizar é a
recuperação de uma nova
objetividade para o mundo, capaz
de sustentar uma outra relação
com a realidade, que estava se
deteriorando. E, a equação
fundamental dessas duas
manifestações, era o desejo de
conservar a vida, fazendo da
luta pela liberdade a
objetividade necessária para que
a vida não perdesse seu
contorno, desfazendo-se na falta
de sentido. Por isso que são
estruturas revolucionárias.
Precisam romper com o passado e
apontar a seta do tempo na
direção do futuro, porque ele
que é o verdadeiro aliado da
construção. Sem estarem a
serviço um do outro, essas duas
manifestações objetivavam
construir novas relações do
homem com a realidade, visando a
conservação da alegria da vida,
que é quando ela pulsa na
liberdade. Somente no momento
imediatamente após a Revolução
Russa essas duas pulsões
caminharam lado a lado,
respeitando cada uma a
necessidade da outra. A
Revolução Bolchevique aceitou o
Construtivismo Russso como
manifestação igualmente
revolucionária, capaz de
contribuir para a construção
espiritual de um novo homem.
Mario Pedrosa engajou-se
fortemente nesse projeto e foi,
entre nós, uma espécie de
guardião dessa idéia até o final
de sua vida. Certamente um dos
poucos no mundo que conservou um
compromisso ético consigo mesmo,
que é o de ver o mundo pela
fresta da invenção como
construção da liberdade. Por
isso que, no final dos anos 50,
imediatamente apoia os jovens
artistas consturtivos, que estão
empenhados em formular uma nova
linguagem para as artes
plásticas brasileiras, que é o
neoconcreto; ou coloca-se contra
o regime militar de 64; ou apoia
Allende no Chile, lançando a
idéia e organizando o Museu da
Solidariedade; ou, na sua volta
do exílio, percebe a importância
do Partido dos Trabalhadores e a
dimensão de Lula como líder
político, tornando-se fundador
do Partido dos Trabalhadores; ou
canaliza suas reflexões
estéticas para pensar e
organizar a exposição Alegria de
Viver, Alegria de Criar, sobre
os povos indígenas do Brasil;
ou, após o incêndio do MAM –RJ,
propõe a criação do Museu das
Origens, que seria uma forma de
enfrentar o ceticismo dos novos
tempos e que foi a espinha
dorsal da Bienal dos 500 anos.
Enfim, a trajetória de Mario
Pedrosa indica, com clareza
cristalina, que seu empenho
intelectual e sua ação visavam
um compromisso, consigo mesmo e
com a sociedade, de buscar,
através da política e da arte, a
invenção como forma de romper
com estruturas viciadas ou
acomodadas, que pudessem abafar
a dinâmica da vida. Por isso que
ele se referia com freqüência à
arte como exercício experimental
da liberdade, e quis destacar,
no final de sua vida, a
importância de se pensar em
estruturas sociais que
estivessem comprometidas com a
idéia da alegria de viver e da
alegria de criar. Infelizmente,
o ceticismo cínico de parte de
nossa intelectualidade,
confundiu e ainda confunde suas
idéias com um romantismo
inconseqüente. Pobres
invertebrados, que não percebem
a vitalidade do seu
pensamento-ação !...
A grandeza de Mario Pedrosa está
na vitalidade. Se, no início de
sua vida adulta, encontra na
Revolução Russa e na Arte
Moderna estruturas capazes de
construir uma nova objetividade
para o mundo, que precisava
acertar seu passo com os
processos de industrialização e
urbanização do século XIX ; no
final de sua vida, encontra no
Partido dos Trabalhadores e na
arte informada a um só tempo
pelas manifestações
contemporâneas e populares, um
novo modelo de objetividade para
o mundo, capaz de lidar com o
niilismo auto destrutivo que
percebia que a modernidade
estava nos levando no final do
século XX. Ambos os caminhos
indicam sua convicção profunda
de que a trajetória do homem
trata de exercitar sua
liberdade. Arte, política e vida
formam uma unidade coesa.
Poderia definir Mario como um
modernista conservador.
Conservador no mesmo sentido dos
profetas que revolucionam as
religiões por terem um profundo
conhecimento de seus princípios,
cujas modificações não são outra
coisa senão lembrar aos fiéis
dos princípios que fundam suas
religiões. Em outras palavras,
Mario Pedrosa foi um modernista
puro, que, até o final de sua
vida refundou os princípios da
modernidade e da Arte Moderna e,
desta forma, abriu caminhos
novos e importantes tanto para a
política quanto para a arte.
Listo os pontos centrais desse
compromisso modernista,
tonificados por Mario: espírito
revolucionário e abertura para o
novo, investimento no futuro
como um horizonte positivo,
descentralização e união dos
povos através do intercâmbio de
culturas de diferentes tempos e
espaços, liberdade como
princípio fundamental da alegria
da vida.
Pode–se surpreender, nas últimas
escolhas da vida de Mario - além
de sua consistência como
crítico, que é a de indicar os
caminhos que ainda não são
visíveis para os outros ou que
ainda não foram trazidos à
superfície da consciência; seu
compromisso ético com os cânones
da modernidade. Um de seus
grandes orgulhos era o de ser o
PT n 1. Percebeu imediatamente a
importância da organização
sindical e de Lula para o futuro
do Brasil. Vislumbrou aí uma
possibilidade real do Brasil
trilhar uma terceira via, que
fosse um modelo de verdadeira
democracia, que se imporia
rechaçando o autoritarismo
político soviético – não podemos
esquecer nunca sua filiação ao
Trotskysmo – e rechaçando o
autoritarismo econômico dos
Estados Unidos. Via, no partido
nascido no interior da
organização sindical, uma força
nova, e por isso revolucionária,
capaz de mudar os rumos da
história do Brasil, como deixou
escrito na Carta Aberta a um
Líder Operário, e que se
confirmou, hoje, com a ascenção
de Lula ao poder. Via com
alegria os caminhos que se
abriam para o Brasil. Refundava,
nesse momento de sua percepção,
seu compromisso com o espírito
revolucionário, a busca do novo
e a descentralização de valores.
A alegria, que é a prova dos 9,
como disse Oswald de Andrade,
foi também medida importante nas
convicções de Mario Pedrosa. No
seu Discurso aos Tupiniquins ou
Nambás, perplexo e revoltado com
o caminho da arte na Europa e
nos Estados Unidos, que, ao
invés de ser uma construção pela
vida, estava se transformando em
processo narcisista de
auto-destruição, fruto de uma
visão cínica e niilista da
realidade, propõe que ficássemos
atentos as forças expressivas
dos povos indígenas do Brasil,
que representavam o lugar onde
arte, organização social, meio
ambiente e vida se juntam. Passa
a trabalhar, então, no seu
último projeto, que é a
exposição Alegria de Viver,
Alegria de Criar. Nesse momento,
Mario estava nos lembrando de
alguns dos princípios básicos da
Arte Moderna que são a
aproximação de valores outros
que não os da tradição
greco-romana, a reafirmação de
uma positividade projetada no
futuro e o reencontro da cultura
brasileira com valores que nos
aproximam das manifestações
locais, gerando, assim,
singularidade no global.
Essa mesma idéia se repete
quando, após o incêndio do
MAM-RJ, propõe a criação do
Museu das Origens. O que está
propondo é que, diante da
falência da modernidade nos
países centrais, que nós
criássemos um museu que fosse
verdadeiramente um museu de Arte
Moderna no seu conceito e na sua
estrutura, isto é, que
reproduzisse na sua concepção os
valores do modernismo de ir ao
encontro das expressões
plásticas de diferentes
culturas, locais e segmentos da
sociedade. Seria um museu único
porque não repetiria o modelo
dos museus enciclopédicos do
Iluminismo e, ao mesmo tempo
daria expressão a uma questão de
nossa atualidade que é
pluralidade. Seria uma reunião
de museus que abordaria
diferentes aspectos de nossas
manifestações plásticas como as
do negro, do índio, do
inconsciente, da ate popular e
da arte contemporânea. Estava
propondo uma nova estrutura de
museu para o Brasil e o mundo,
cujo resultado seria o
auto-reconhecimento da nossa
cultura e o aumento da
auto-etima do povo brasileiro.
Esses exemplos mostram como
Mario Pedrosa sempre esteve
comprometido com um projeto de
construção da identidade
brasileira. Toda sua capacidade
de ativista político e de
crítico de arte estava voltada
para a idéia de como o Brasil
poderia ir ao encontro de si
mesmo, sem ser tomado por um
nacionalismo regional e
sufocante, mas por uma busca de
singularidade arejada que
marcasse a diferença em meio a
pluralidade das diferentes
culturas do planeta. A forma
lúcida e generosa com que
construiu essa visão do Brasil
para o mundo é um legado
fabuloso para as futuras
gerações. É um exemplo de
auto-estima cultural, na medida
em que mostra que o Brasil tem
uma contribuição efetiva para a
história da política e da arte.
Foi um visionário, dotado da
fina sensibilidade daqueles que
agem iguais aos seus
pensamentos. Ao juntar política
e arte estava empenhado em
entender as relações entre os
dados objetivos e subjetivos da
realidade humana. A definição
dessa fronteira é o que cada vez
mais vai caracterizar a
especificidade da cultura
brasileira e foi Mario Pedrosa
quem primeiro soube tão
delicadamente articular essa
questão, quando escreveu sobre a
natureza afetiva da forma na
obra de arte. Estava, nesse
momento, gerando o embrião do
que viria a ser o desdobramento
do movimento neoconcreto, que
dobra vida e arte sem se
confundir com um projeto
político.
Entre os dados objetivos e
subjetivos da realidade, Mario
Pedrosa construiu sua
singularidade. E é a respeito da
memória desta singularidade, que
podemos ter algumas pistas nesse
arquivo organizado com a
dedicação à minúcia e ao detalhe
de Helena Ferrez, sem quem nada
disso seria possível, e ao
patrocínio da Petrobrás que
viabilizou essa inicaitiva. A
vantagem de termos hoje seus
documentos e biblioteca
organizados é o óbvio. É a
possibilidade de acesso à
informação, que, de outra forma,
estaria perdida, mas que
felizmente está conservada para
alimentar todos aqueles que
tiverem interesse em conhecer
uma das personalidades mais
positivas, menos preconceituosa
e mais corajosa da história do
Brasil.
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